Piscina em casa é sinônimo de lazer, mas também é o lugar onde acontece a maioria dos afogamentos de crianças pequenas. Segundo a Sobrasa (Sociedade Brasileira de Salvamento Aquático), o afogamento está entre as principais causas de morte de crianças de 1 a 4 anos no Brasil, e boa parte desses casos acontece dentro de casa, em piscinas, baldes, banheiras e caixas d’água. Nos Estados Unidos, o CDC (órgão de saúde pública do país) aponta o afogamento como a principal causa de morte nessa faixa etária, com a maioria dos casos em piscinas.
O afogamento de criança pequena raramente é como nos filmes. Não há gritos nem braços se agitando. É rápido e silencioso: em poucos segundos a criança afunda, muitas vezes a poucos metros de adultos que não perceberam nada. Por isso a prevenção depende de várias camadas de proteção funcionando juntas, e não de uma única medida.
Camada 1: supervisão ativa
Nenhum equipamento substitui um adulto olhando. Supervisão ativa significa:
- Um adulto responsável só por olhar a água, sem celular, livro ou conversa que tire a atenção. Em festas, é comum todos acharem que alguém está olhando, e ninguém está. Combine turnos: um adulto de cada vez, por exemplo, por 15 minutos.
- Distância de um braço para crianças pequenas e para quem ainda não nada bem: o adulto deve conseguir alcançar a criança imediatamente.
- Atenção redobrada fora do horário de banho. Muitos afogamentos acontecem quando ninguém imaginava que a criança estava perto da piscina: durante uma visita, depois do almoço, enquanto os adultos conversam dentro de casa.
- Bebida alcoólica e supervisão não combinam. O adulto responsável precisa estar sóbrio.
Se uma criança sumir, procure primeiro na piscina. Cada segundo conta.
Camada 2: barreiras físicas
A barreira impede que a criança chegue à água sem um adulto. O CDC destaca a cerca ao redor da piscina como uma das medidas mais eficazes para evitar afogamentos de crianças pequenas. Uma boa cerca:
- cerca a piscina por todos os lados, separando-a também da casa (cerca que só fecha o terreno não basta, porque a criança sai pela porta da cozinha direto para a água);
- tem altura suficiente para a criança não pular, e normas e fabricantes costumam indicar pelo menos 1,20 m;
- não tem apoios para escalar, como travessas horizontais, vasos, cadeiras ou móveis encostados;
- tem vãos estreitos, para a criança não passar entre as barras;
- tem portão com fechamento e trava automáticos, abrindo para fora da área da piscina, com a trava fora do alcance de crianças.
Outras barreiras complementam a cerca: alarmes em portas que dão para a piscina, alarmes de piscina que detectam a entrada de algo na água e capas de segurança certificadas, tensionadas e ancoradas. Capa térmica de bolhas ou lona comum não são barreiras e podem até aumentar o risco, porque a criança pode afundar e ficar presa embaixo. Nunca deixe ninguém nadar com a capa parcialmente aberta, e retire a água que se acumula em cima dela depois da chuva.
Camada 3: aprender a nadar
O CDC informa que aulas formais de natação reduzem o risco de afogamento em crianças. Aprender a nadar e a flutuar, entrar e sair da piscina pela borda e pedir ajuda são habilidades importantes. Mas saber nadar não torna nenhuma criança “à prova de afogamento”: a supervisão continua indispensável, mesmo para quem nada bem.
Boias de braço e brinquedos infláveis não são equipamento de segurança. Eles podem esvaziar, escapar ou virar, e dão aos pais uma falsa sensação de proteção. Para quem não sabe nadar, o colete salva-vidas adequado ao peso, com certificação, é a opção correta, e mesmo assim com um adulto por perto.
Camada 4: estar preparado para emergências
- Aprenda reanimação cardiopulmonar (RCP). Os primeiros minutos fazem diferença, e o socorro pode demorar. Cursos de primeiros socorros ensinam a técnica para adultos e crianças.
- Tenha à mão um telefone, o número do Samu (192) e dos Bombeiros (193), e equipamentos simples de resgate, como uma boia com corda ou uma vara.
- Combine o que fazer: quem liga para o socorro, quem tira a criança da água, quem inicia a reanimação.
Riscos que passam despercebidos
Ralos de sucção. A sucção forte de ralos de fundo ou de spa pode prender cabelo, roupa ou partes do corpo e manter a pessoa submersa. Ralos devem ter tampas antiaprisionamento em bom estado, e o sistema deve ser projetado para evitar sucção concentrada. Ensine as crianças a não brincar perto dos ralos e mantenha as tampas sempre no lugar. Se uma tampa estiver quebrada ou faltando, não use a piscina até trocar.
Brinquedos na água. Bolas e brinquedos boiando atraem crianças para a borda. Retire tudo da piscina depois do uso.
Mergulho em água rasa. Mergulhar de cabeça na parte rasa pode causar lesão grave na coluna. Defina regras claras: nada de mergulho na parte rasa, nada de correr na borda molhada.
Água turva. Se não dá para ver o fundo com clareza, a piscina não deve ser usada: ninguém consegue enxergar uma criança submersa. Veja água da piscina turva.
Produtos químicos. Cloro, ácidos e outros produtos de piscina são perigosos se ingeridos ou inalados. Guarde em local fechado, alto ou trancado, nas embalagens originais, e nunca passe produto para garrafas de refrigerante. O CDC orienta manter os químicos fora do alcance de crianças. Veja para que serve cada produto de piscina.
Outros reservatórios. Baldes, bacias, caixas d’água destampadas e piscinas infláveis esquecidas cheias também afogam. Crianças pequenas podem se afogar em poucos centímetros de água. Esvazie baldes e piscininhas depois do uso e mantenha caixas d’água tampadas.
Na casa dos outros
Muitos afogamentos acontecem na piscina de um parente, vizinho ou amigo, em festas e visitas, quando a rotina é outra. Ao chegar a uma casa com piscina, pergunte se há cerca e portão, combine quem vai olhar as crianças e não presuma que alguém está de olho. Se você é o anfitrião, deixe a área da piscina fechada enquanto ninguém estiver supervisionando.
Checklist de segurança
- Cerca em volta da piscina, separando-a da casa, com portão de fechamento e trava automáticos.
- Nada encostado na cerca que sirva de escada.
- Um adulto sempre designado para olhar a água, sem distrações.
- Crianças pequenas e quem não nada bem a um braço de distância.
- Tampas de ralo inteiras e no lugar.
- Brinquedos fora da água depois do uso.
- Produtos químicos trancados.
- Telefone, números de emergência e boia com corda à mão.
- Pelo menos um adulto da casa com curso de RCP.
- Água transparente antes de qualquer uso.
Cuidar da água da piscina é importante, mas nada é mais importante que cuidar de quem está nela. A rotina de manutenção está no checklist de manutenção.
Fontes
- CDC: prevenção de afogamentos (em inglês)
- CDC: fatores de risco para afogamento (em inglês)
- Sobrasa: Sociedade Brasileira de Salvamento Aquático
- CPSC: segurança em piscinas (em inglês)
Imagem de capa: cerca removível de proteção ao redor de uma piscina residencial, por Meb55 (Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0).